Efemérides Arquitetônicas, Parte II
Nos posts anteriores falamos sobre a data institucional da arquitetura. Hoje completamos a lista de celebrações arquitetônicas em dezembro com festas religiosas e aniversários significativos.
Celebrações Católicas
Reza a sabedoria convencional que o Brasil é o maior país católico do mundo. Evidentemente essa afirmação é muito reducionista para dar conta da realidade religiosa nacional. Não é segredo que a maioria dos 74% de brasileiros que se dizem católicos também são espíritas, ou adeptos do candomblé, da macumba, ou até mesmo (sim, isso existe!) católicos e evangélicos!
Seja como for, é inegável que o catolicismo tem um impacto preponderante nas tradições festivas brasileiras, ainda que no nosso país a tradição do onomástico (festa do santo padroeiro individual) não seja tão forte quanto na Europa, onde é quase um segundo aniversário para os católicos praticantes.
E a arquitetura nisso tudo?
Além do fato de Jesus Cristo ter sido carpinteiro, três santos do panteão católico podem ser associados à arquitetura.
4 de Dezembro: Santa Bárbara
Começo com a santa que não é mais, pois é uma ótima ilustração da criatividade religiosa cristã. A festa de Santa Bárbara é tradicionalmente celebrada em 4 de dezembro.
Dizia-se de Barbára de Nicomédia que vivera no século III naquela cidade da Ásia Menor (hoje İzmit, Turquia). Ela teria sido trancafiada numa torre pelo próprio pai, para ficar distante da cobiça dos rapazes. No seu isolamento, Bárbara reflete sobre a religião e decide se converter ao cristianismo. Como símbolo dessa conversão, ela pede que se abram três janelas na torre, indicando a Santíssima Trindade. Quando seu pai descobre a conversão, ele próprio martiriza a filha, sendo atingido por um raio logo após executá-la.
O relato da sua existência, a começar pelo nome, improvável no século III, é altamente duvidoso e surge só no século VII. Hoje em dia considera-se Santa Bárbara como uma personagem fictícia. Mesmo assim, na Igreja Ortodoxa ela ainda é bastante popular. Na Católica, o auge do seu culto ocorreu na Idade Média, entrando em declínio depois disso. Em 1965 foi removida da lista de celebrações religiosas católicas, num reconhecimento tácito de que ela não tenha existido enquanto pessoa histórica.
Apesar disso, ainda se encontram devotos de Santa Bárbara no mundo católico. Devido ao episódio do raio fulminando seu pai, ela é considerada a santa padroeira das profissões perigosas, especialmente da mineração e da artilharia. Por isso está presente em algumas cidades do ciclo do ouro, como Goiás Velho. Pelo mesmo motivo, no Candomblé brasileiro ela é associada a Iansã, orixá das tempestades, lembrada para os não-devotos na canção interpretada por Clara Nunes.
Por causa do episódio da torre, Santa Bárbara também é ocasionalmente mencionada como padroeira da arquitetura, pelo viés do projeto consciente e consciencioso.
21 de Dezembro: São Tomé
Tomé, o incrédulo, é o mais arquitetônico dos santos cristãos. Sua festa é atualmente celebrada na Igreja Católica em 3 de julho, a festa da transferência de suas relíquias da cidade indiana de São Tomé de Meliapore (Índia) para Edessa (atual Şanlıurfa, Turquia). Antes de 1970, no entanto, os católicos (e até hoje os anglicanos e episcopais) celebravam São Tomé em 21 de dezembro, data do seu martírio em 72.
Além do episódio do dedo nas chagas, Tomé é conhecido como o evangelizador da Índia. Diz-se que ele teria sido enviado à região por Jesus; o autor francês Gerald Messadié (mais conhecido no Brasil pela sua História do Diabo ) faz um relato original e verossímil da viagem de Tomé à Índia, acompanhado pelo Cristo e pelas duas Marias, no romance histórico Jésus de Srinagar (ainda sem tradução para o português).
Incrédulo por natureza, Tomé era pedreiro por profissão. A associação das duas características faz com que a vinculação arquitetônica desse santo se dê pela ênfase na execução, portanto na comprovação, no ver para crer, e não apenas no projeto.
23 de Dezembro: Frei Galvão
Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, considerado o “primeiro santo brasileiro” (tirando o título de Madre Paulina, que, na falta de melhor, havia recebido a alcunha apesar de não ter nascido no País), é no Brasil ocasionalmente associado à arquitetura. Frei Galvão morreu em 23 de dezembro de 1822, mas, assim como São Tomé, teve sua festa deslocada para o dia 25 de outubro, data de sua beatificação, para não interferir nas celebrações do Advento.
O papel arquitetônico de Frei Galvão é o mais consistente e documentado dos três santos, até por ele ser de longe o mais recente. O santo brasileiro refundou e ampliou o mosteiro da Luz, em São Paulo (hoje museu de arte sacra). Nesse processo, ele teria sido ao mesmo tempo cliente, arquiteto, mestre de obras, e também pedreiro.
Apesar disso, como a imensa maioria dos santos venerados no Brasil, Frei Galvão é principalmente invocado como curador de doenças.
Efemérides Seculares
Duas são as principais celebrações seculares da arquitetura no Brasil: a fundação de Brasília, que para azar dos nativos coincide com outro feriado nacional, a festa de Tiradentes, privando-nos assim de um dia adicional de repouso, e o aniversário de Oscar Niemeyer, em 15 de dezembro.
Aniversário de Brasília
Espécie de Páscoa laica, o aniversário de Brasília celebra o (re)nascimento da arquitetura brasileira no cenário internacional. Para tanto, foi preciso primeiro levar a arquitetura vernácula para um passeio de mulas, em seguida flagelar o ecletismo, depois crucificar um primeiro modernismo por demais alinhado com a linguagem plástica do racionalismo europeu.
Aí, no terceiro dia, nasce uma arquitetura moderna tipicamente brasileira (já prenunciada na Pampulha). Durante séculos (ou décadas) a Arquitetura Modernista Apostólica Brasileira sofre perseguições, em especial por parte da Arquitetura Reformada de Confissão Pós-Moderna Européia. Mas a Arquitetura Modernista Brasileira também tem a sua própria inquisição, encarregada de perseguir os patrícios infiéis.
Ao mesmo tempo que criticar Brasília virou passatempo dos arquitetos laicizados intelectuais eurófilos, persiste um patrulhamento teológico que intimida quem quer que ouse questionar a verdadeira revelação arquitetônica moderna brasileira — que ninguém ouse sugerir que ela não é tão moderna assim, ou não tão brasileira assim, sob pena de queimar no fogo do inferno, mais conhecido como ostracismo acadêmico-editorial.
Aniversário de Oscar Niemeyer
Se o calendário litúrgico da arquitetura brasileira tem uma Páscoa laica, por que não ter um Natal laico? Muito apropriadamente, o respectivo bom velhinho não se veste de vermelho (é torcedor do Fluminense), mas é vermelho até a raiz dos imortais cabelos, filiado ao Partido Comunista Brasileiro, e ateu. Ainda assim destaca-se pelos ousados projetos de igrejas, cada qual um chiste peculiar com a congregação condenada a usá-lo.
Nenhum outro arquiteto, vivo ou morto, tem a honra de ver seu aniversário lembrado nos jornais pátrios. Nem estou pedindo que se saiba o aniversário do Aleijadinho, figura nebulosa da exuberância colonial. Alguém se lembra do aniversário de Lucio Costa? De Gregori Warchavchik, introdutor da arquitetura modernista no Brasil? De Lelé ou Paulo Mendes da Rocha, dois luminares ativos da atual arquitetura brasileira?
Não, a figura de Oscar Niemeyer, o velhinho simpático, que perpassou oito décadas de arquitetura brasileira, o fumante inveterado com fama de imortal, supera e ofusca a todos. Pode-se amá-lo ou detestá-lo, dizer que nunca viu coisa igual ou que ele imitou muito da arquitetura européia dos anos 20 e 30 (e que também foi muito imitado, claro). Pode-se celebrá-lo como alguém que trouxe a arquitetura para o primeiro plano na sociedade brasileira, ou ao contrário criticá-lo por não prestigiar as entidades representativas dos arquitetos e ser usado como pretexto para evitar concursos de projeto.
Oscar Niemeyer é tudo isso, mas no imaginário popular ele é acima de tudo o bom velhinho imortal da arquitetura.





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